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Entre a retirada e o retorno: qual será o legado Biden?
O presidente dos EUA, Joe Biden, faz comentários sobre o Afeganistão, na Sala Leste da Casa Branca em Washington, DC, EUA, em 16 de agosto de 2021.

O presidente dos EUA, Joe Biden, faz comentários sobre o Afeganistão, na Sala Leste da Casa Branca em Washington, DC, EUA, em 16 de agosto de 2021.| Foto: SHAWN THEW/Agência EFE

Depois de quase duas décadas da invasão norte-americana ao
Afeganistão, o país centro-asiático volta aos noticiários de
forma dramática. O grupo fundamentalista Talibã dominou o
Afeganistão desde a metade da década de 1990 até 2001. Após os
ataques terroristas aos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001, o
grupo recusou-se a entregar Osama Bin Laden aos EUA, que invadiu o
país naquele mesmo ano e expulsou o Talibã de sua capital.

Desde então, os
EUA investiram mais de US$ 1 trilhão no Afeganistão, considerado um
país estratégico não apenas por suas reservas de recursos
naturais, mas também por sua localização: próximo do Irã, Índia,
China e Paquistão – o único país de maioria muçulmana a ter
bomba atômica. Em meio à retirada das tropas dos EUA – prevista
para encerrar-se totalmente no mês de setembro –, o grupo
fundamentalista Talibã retomou o controle do Afeganistão neste
domingo, 15 de agosto.

Ainda que tenham
sido expulsos da capital Cabul e de várias outras regiões do país
em 2001, o Talibã nunca foi totalmente derrotado. Sua retomada do
Afeganistão neste mês é o ponto máximo de uma campanha iniciada
há alguns meses. Enquanto o exército oficial do país – treinado
pelos EUA – retirava-se de áreas de batalha, o grupo recolhia
armas e munições pelo caminho. Pela rápida evolução do Talibã,
pode-se afirmar que o grupo é muito mais do que insurgente.

Desde que o
Talibã cercou Cabul, entre a sexta-feira 13 e a segunda-feira 16 de
agosto, tristes imagens chegaram até nós. Ruas congestionadas no
caminho em direção ao aeroporto internacional, famílias inteiras
desesperadas correndo para entrar em qualquer avião, tiros
disparados ao alto numa tentativa de conter os angustiados. Os
professores já se despediram de suas alunas, acreditando que nenhuma
menina maior de 10 anos poderá ter acesso à educação, como foi na
outra época de domínio do grupo sob o país.

O presidente
Ashraf Ghani deixou o Afeganistão, e foi seguido por outros
políticos de forma quase imediata. No domingo, 15 de agosto, os
talibãs já estavam no palácio presidencial alegando que a guerra
havia acabado e que o país estava livre de seus dominadores. De um
lado, o grupo extremista afirmou buscar o diálogo e uma transição
pacífica de poder. De outro, garantiu buscar a conversão total de
seu país e dos demais à visão mais conservadora e radical do
islamismo. Alguns relatos dão conta de que estão exigindo que as
famílias entreguem meninas e mulheres solteiras para que se tornem
esposas dos combatentes. Por tudo isso, a afirmação talibã de que
respeitará os direitos das mulheres parece ser apenas uma tentativa
de acalmar os ânimos de quem tenta fugir, para impor novamente seu
domínio radical.

Em fevereiro de
2020, ainda sob o governo Trump, os EUA e o Talibã assinaram um
acordo de paz no Catar. Dentre os objetivos do acordo estava não
apenas a retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão, mas
também a possibilidade de que essas tropas continuassem no país em
caso de qualquer escalada de violência. Ainda que Cabul não tenha
sido atacada nos últimos dias, o governo norte-americano se apressou
a retirar seus nacionais do país.

Biden, até então, afirmava-se comprometido em retirar os norte-americanos dali. A grande dúvida no momento é se o atual presidente dos EUA cumprirá essa promessa, abandonando os afegãos à própria sorte. Os chineses já reconheceram o Talibã como governante oficial em seu país. Mês passado, representantes do grupo estiveram na China e disseram que jamais permitirão que alguém use o solo de seu país contra os chineses.

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Os russos já
declararam estar prontos para reconhecer o Talibã como a autoridade
legítima do Afeganistão. Enquanto imagens femininas são pintadas e
cobertas por toda Cabul, o Conselho de Segurança da ONU segue em
reunião, discutindo os rumos que estão tão indefinidos quanto o
futuro dos agoniados afegãos. A dúvida no momento é se Biden
cumprirá sua promessa de retirada total das tropas, ou se os EUA
retornarão ao país que invadiram há quase duas décadas, numa das
mais caras guerras de sua história. Como fica a chamada guerra ao
terrorismo? Poderia o acuado Estado Islâmico usar o Afeganistão
como uma nova base?

Esse é o
momento-chave para definir qual será o legado de Joe Biden na
presidência dos EUA: se um pacifismo pouco misericordioso, ou uma
nova etapa na guerra ao radicalismo.

João
Alfredo Lopes Nyegray,
advogado, bacharel em Relações
Internacionais, especialista em Negócios Internacionais, mestre em
Internacionalização e doutorando em Estratégia, é professor de
Geopolítica e Negócios Internacionais e coordenador do curso de
Comércio Exterior na Universidade Positivo.