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Antigos devotos das academias se dividem sobre retorno após quarentena

Alex Williams

The New York Times

O despertador toca às 5h30 para a aula de spinning. A espera interminável pela máquina de exercício abdominal. A massa de corpos suados bufando e resmungando bem perto, e o banho apressado seguido pela correria com cabelos molhados para chegar ao escritório antes do chefe. O hábito de frequentar academias de ginástica sempre teve seu preço em incômodos e despesas, para os americanos. E aí veio a pandemia.

O que acontece agora? Com a reabertura do mundo —ou pelo menos com a nossa esperança de que ele reabra—, o setor de academias de ginástica, ferido pela crise, está contando com a demanda reprimida para um renascimento. Isso vai mesmo acontecer? Ou os guerreiros de academia, depois de um ano em que descobriram alternativas de fitness em casa e ao ar livre, virão a considerar as velhas academias de ginástica anacrônicas, como um vídeo de exercícios “Disco Sweat” de Richard Simmons na era Clinton?

Considere o exemplo de Henry Lihn, 40, empreendedor de tecnologia em Nova York. Antes da pandemia, ele frequentava uma academia Equinox em Manhattan pelo menos quatro vezes por semana, para trabalhar com pesos, treinar boxe ou fazer ioga. Mas nem sonharia com isso agora. “A academia é um verdadeiro festival de bactérias da Covid e de rodinhas de treino para hamsters”, disse Lihn. “Pretendo voltar nunca”.

Em lugar disso, Lihn adotou um regime de condicionamento ao ar livre, respeitando o distanciamento social: ele pedala pela West Side Highway duas vezes por dia, joga tênis em quadras públicas no Brooklyn e se exercita usando como barra de apoio os sinais de travessia de pedestres. O vento no rosto, o sol aquecendo a face: ele se apaixonou por se exercitar nas ruas. Algumas semanas atrás, cancelou seu plano na academia.

As incertezas com relação à variante delta não ajudaram a encorajar algumas pessoas que costumavam se exercitar em grupo. “Tenho zero interesse por voltar ao estúdio de ioga”, disse Heidi Kim, 33, consultora de tecnologia em Los Angeles, uma cidade que recentemente voltou a impor o uso de máscaras em espaços públicos fechados. “Das muitas coisas que quero fazer em ambientes fechados, suar em companhia de desconhecidos não tem um lugar alto em minha lista”, ela disse.

Kim mantém a forma agora com longas corridas ao ar livre, e faz musculação seguindo instruções do site de fitness Sculpt Society. Outras pessoas vieram a acreditar que já não precisam pagar US$ 200 (R$ 1.050) ou mais por mês para se exercitar quando podem investir em alguns equipamentos caseiros de exercício e obter o mesmo resultado.

“Fazer exercícios em casa com o Beachbody on Demand e aulas grátis de influenciadores do Instagram funcionou muito bem para mim”, disse Danielle Harper, 44, diretora de criação de uma companhia que fabrica produtos para casa em Cleveland. “Por isso, ao menos por enquanto, minhas prioridades de orçamento já não incluem dinheiro para pagar a academia”.

E além disso existe a conveniência adicional de não ter de perder tempo indo e voltando da academia, trocando de roupa para os exercícios e tomando banho —atividades que podem requerer quase tanto tempo quanto a sessão de exercícios em si.

Outras pessoas descobriram que o senso de comunidade e de convivência social que encontram em academias de ginástica pode ser reproduzido facilmente em outros ambientes.

Depois que a filial local da Equinox fechou, Harry Santa-Ollala, 34, leiloeiro que mora no Brooklyn, na metade do ano passado criou um grupo de fitness com alguns amigos, entre os quais o ator Kit Harington, de “Game of Thrones”, para corridas nas colinas e exercícios.

Trabalhando com essa equipe muito unida, os integrantes conseguiram se manter motivados e controlados emocionalmente, em um período difícil. “Mais dois caras se juntaram a nós hoje”, disse Santa-Ollala. “Vou fazer um churrasco amanhã no topo do meu prédio, e eles vão. Isso nunca teria acontecido em uma academia”.

Um senso de camaradagem parecido também pode ser encontrado em casa, por meio de aulas de spinning em grupo da Peloton ou personal trainers no Zoom.

“Desde o primeiro dia em que recebi a bicicleta Peloton, me exercitei todos os dias, por quatro meses sem parar”, disse Amy Lin, 32, professora de escola primária em Calgary, Canadá, que cancelou sua academia e seu personal trainer, os dois bem caros, em troca de um grupo da Peloton chamado Lonely Bikes Club.

Em um ano repleto de isolamento, e no caso dela pesar (o marido de Lin morreu no ano passado, de uma doença não relacionada à Covid), a nova rotina lhe deu um senso de inclusão. “Por causa dessa sofisticada bicicleta que não vai a lugar algum”, disse Lin, “eu, de alguma forma, consegui seguir em frente”.

Outra moda de condicionamento surgida na pandemia –sessões com personal trainers via Zoom– manteve seus atrativos, mesmo depois da reabertura das academias. “As pessoas adoram”, disse Michael Gabryszewski, 26, personal trainer em Rhinebeck, Nova York. “Elimina a necessidade de ir à academia, que é uma grande barreira para o condicionamento. Assim, em vez de fazer uma sessão por semana, é possível fazer quatro ou cinco, porque elas ocupam menos tempo em cada agenda”.

As academias e treinadores virtuais parecem ter chegado para ficar. De acordo com uma pesquisa recente da consultoria McKinsey, 70% das pessoas que usaram programas online de fitness durante a pandemia planejam continuar a usá-los em longo prazo.

PREPARATIVOS PARA O RETORNO

Tudo isso pode parecer ameaçador para o futuro das academias, que se tornaram parte integrante da cultura americana pelo menos desde que John Travolta, usando shortinhos curtos, apareceu fazendo exercícios aeróbicos em “Perfect”, filme de 1983.

Cerca de 22% das instalações de fitness dos Estados Unidos fecharam permanentemente durante a pandemia, de acordo com a Associação Mundial de Saúde e Fitness (IHRSA), e 1,5 milhão de trabalhadores do setor perderam o emprego, do começo da pandemia para cá.

“Os seis meses de fechamento foram com certeza um período duro”, disse Todd Magazine, presidente-executivo da Blink Fitness, uma cadeia nacional de academias de ginástica de baixo preço que teve de demitir e licenciar pessoal. “Somos basicamente um negócio offline”.

Mas também existe motivo para otimismo. Muitos dos obcecados por condicionamento parecem estar ouvindo o canto da sereia e retornando ao Stair-Master.

Com o relaxamento das restrições relacionadas à Covid em algumas regiões, a frequência das academias já equivale a 80% da que elas tinham antes do lockdown, em janeiro de 2020, de acordo com uma pesquisa recente do grupo de serviços financeiros Jefferies (vale apontar que o número de inscritos em academias de ginástica tinha chegado a um recorde em 2019, de acordo com a IHRSA).

Na Blink Fitness, a recuperação é visível. No mês passado, normalmente um período fraco para inscrições em academias de ginástica, o número de novos membros foi igual ao de janeiro de 2020. Janeiro costuma ser um mês frenético em termos de inscrições, porque as pessoas tentam cumprir suas resoluções de Ano Novo.

A Gold’s Gym International, que pediu concordata em 2020, foi recentemente adquirida pelo RSG Group, uma companhia alemã de fitness, por US$ 100 milhões (R$ 523 mi). A cadeia 24 Hour Fitness, que fechou 100 academias e pediu concordata, saiu dela em dezembro depois de uma reestruturação.

Os negócios estão florescendo em algumas academias menores, igualmente. “Nossos números foram mais fortes no trimestre passado do que em qualquer momento de nossa história”, disse Jenny Liu, presidente da Dogpound, uma academia de ginástica de alto preço cujo foco é o treinamento personalizado, e tem unidades em Manhattan e em West Hollywood, Califórnia.

Alguns dos adeptos mais firmes do condicionamento físico têm motivos mais importantes para voltar à academia: frequentá-las é o tipo de coisa que as pessoas faziam sem nem pensar antes da pandemia.

Em julho, Sarah Goldsmith, 36, profissional de comunicações em uma empresa de relações públicas de Washington, voltou à rotina rigorosa de exercícios que mantinha antes da Covid, em geral começando o dia às 5h15. “Fico dolorida o dia todo, desde então”, disse Goldsmith. “Para mim, isso é parte importante de voltar a me sentir normal”.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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