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A pedagogia pobre da matemática impessoal

Os
cristãos […] se tornam imensamente culpados quando se deixam
cativar pela idolatria de considerar a lei científica e aritmética
impessoal. Dentro desse cativeiro, tomamos por certo os benefícios e
as belezas da ciência e matemática, pelos quais deveríamos na
verdade ser cheios de gratidão e louvor a Deus.”
(Vern
Poythress, Redimindo
a matemática: uma abordagem teocêntrica
)

Certa
vez, um professor e orientador universitário recebeu a monografia de
seu orientando, que, na sua opinião como docente experiente, tinha
um grande talento a mostrar. Quando o professor terminou de ler o
trabalho, declarou, assustado: “Isso está muito pobre!”, mas deu
nota máxima ao orientando. Por quê? O professor disse aquilo não
pela incapacidade do aluno, mas por saber que, dada a inteligência e
o talento do jovem, poderia ter oferecido muito mais naquela ocasião
tão especial de conclusão de curso.

Acredito
que a pedagogia moderna aplicada à matemática se encaixa
perfeitamente nessa história, especificamente na figura do aluno. A
matemática, embora seja útil em muitos aspectos, é pobre em suas
capacidades. Hoje, a matemática é compreendida pelos alunos como
uma disciplina para aprender a “contar o troco do sorvete” e,
quando muito, a não entrar na faculdade de Engenharia passando
vergonha. O que aconteceu para que essa disciplina tão nobre se
tornasse tão pobre? Minha resposta: o
dogma da impessoalidade aritmética.

Entramos
aqui em uma tema relacionado à filosofia da matemática e, para uma
discussão de alto nível, precisamos recorrer aos grandes pensadores
que contribuíram significativamente com o assunto. O que é o dogma
da impessoalidade aritmética? Para compreendermos, precisamos partir
da definição de aritmética. Grosso
modo
,
trata-se da parte
da matemática que lida com as operações numéricas: soma,
subtração, divisão e multiplicação. Todas essas categorias
revelam a racionalidade da matemática. Ou seja, se somos capazes de
compreender a realidade dos números e suas operações
racionalmente,
é porque os números também possuem níveis de racionalidade.

Vern
S. Poythress é bacharel em Matemática pelo Instituto de Tecnologia
da Califórnia e Ph.D. em Matemática pela Universidade de Harvard,
onde lecionou também por um ano. Em sua obra Redimindo
a Matemática
,
de 2015, Poythress argumenta a respeito do consenso científico sobre
a racionalidade dos números:
“Os cientistas e os matemáticos na prática acreditam
apaixonadamente na racionalidade das leis científicas e leis
aritméticas. Não estamos lidando com algo totalmente irracional,
inexplicável e não analisável, mas sim com uma legalidade que em
certo sentido é acessível à compreensão humana. A racionalidade é
uma condição sine
qua non

para a lei científica.”

Poythress
parece sugerir que o grande problema da discussão não está no fato
de filósofos e matemáticos reconhecerem racionalidade nas leis
aritméticas, mas em outro lugar, como antes indicado, isto é, na
impessoalidade dessa lei matemática. A racionalidade, argumenta
Poythress na mesma obra, “pertence às pessoas, não às rochas,
árvores e criaturas subpessoais. Se a lei é racional, como supõem
os matemáticos, então também é pessoal”. Isso equivale a dizer
que a lei matemática revela traços de uma pessoa, o que está de
acordo com a visão teísta do mundo.

O
recém-falecido físico,
teólogo e sacerdote anglicano inglês
John
Charlton Polkinghorne compreendia que a única maneira de admitir
coerentemente os aspectos pessoais das leis matemáticas seria
assumir também um sistema teísta, em que o universo parece
cravejado de sinais de inteligência e a fé recebe, afirmada e
satisfatoriamente, o que a revelação natural – como define Herman
Bavinck em As
Maravilhas de Deus
–tem
a nos dizer: “Isso realmente é assim, diz o teísta, pois é a
Mente de Deus que está por trás de sua beleza racional. Não
apresento isso como um argumento arrasador em defesa do teísmo –
não existem argumentos arrasadores, nem a favor, nem contra –, mas
como uma percepção satisfatória que encontra lugar compatível na
visão teísta do mundo”, escreve Polkinghorne em Cross-traffic
between Science and Theology
.

A
matemática expressa, dentro de uma visão teísta de mundo, não
somente meros cálculos utilitários para a vida cotidiana. Daí ser
muito pobre a pedagogia da matemática atual. Ela revela o caráter
do próprio Criador. Vejamos alguns exemplos. Na matemática, diz
Poythress, “há profundezas insondáveis e perguntas sem resposta”
que identificamos como a expressão no mundo criado da natureza
incompreensível de Deus em muitos aspectos.

Além
disso, a matemática revela valores, como bondade
ao nos dar um preceito intelectual, beleza
ao nos proporcionar simetria e harmonia entre os números e a vida
humana, e também retidão
ou justiça,
ao estabelecer consequências para a transgressão das leis
aritméticas: “As pessoas podem, por exemplo, tentar desobedecer às
leis aritméticas ao saldar as despesas no talão de cheques. Se o
fazem, podem sofrer por isso. Há um tipo de justiça embutida na
forma como as leis aritméticas levam às consequências”,
continua Poythress.

Quando,
em 56 d.C., o apóstolo Paulo escreveu à igreja cristã em Roma,
quis explicitar esse princípio: que o mundo criado, em todos os seus
aspectos (numérico, moral, biológico etc.), revela o caráter do
Criador, e por isso se torna um ponto de contato entre o crente e o
seu Senhor. Os atributos de Deus que são invisíveis, “assim o seu
eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se
reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio
das coisas que foram criadas” (Rm 1,20).

A matemática utilitária, baseada em uma visão impessoal das leis aritméticas, não pode nos proporcionar a experiência do conhecimento de Deus na natureza. Ela só pode dizer o que é, não por que é. Contudo, como “Stephen Hawking indicou em um aforismo muito citado, encontrar uma resposta a ‘por que é que nós e o universo existimos’ é ‘conhecer a mente de Deus’”, diz Alister McGrath em Uma teoria de tudo (que importa): uma breve introdução a Einstein e suas ideias surpreendentes sobre Deus. Quando incluímos Deus no processo do conhecimento matemático, compreendemos mais da matemática e mais de Deus.

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Por
fim, quais as consequências práticas desse tipo de ensino teísta
da matemática? Imagine um aluno que pergunte ao professor a razão
pela qual 1+1=2, e recebe uma resposta própria da abordagem
utilitária e impessoal: “porque é” ou algo do tipo. O aluno
será submetido a um conhecimento pobre, impessoal, da matemática, e
a compreenderá como uma ciência totalmente desorientada de sentido
espiritual e moral. Mas, quando “um aluno faz a mesma pergunta a um
professor, e recebe uma resposta típica de uma abordagem
transcendente – ‘que 1+1=2 porque vivemos em um universo
ordenado, criado por um Deus pessoal’ – então ele é submetido a
um conhecimento integrado e pessoal, que fortalece a possibilidade de
analogias para outras áreas mais complexas e mais significativas da
existência”,
nas
palavras de Filipe Costa Fontes em Você
educa de acordo com o que adora: educação tem tudo a ver com
religião
.
O
aluno entra em uma atmosfera de conhecimento que é capaz de expandir
toda a riqueza de sentido e significado da matemática, como reflexo
do ser de Deus que criou as leis matemáticas, dotou o aluno de
entendimento e, finalmente, estabelece, pelo mundo criado, uma
relação direta com o estudante. Assim, o matemático pode fazer
cálculos para a glória de Deus.

Fernando Razente é graduado em História e professor licenciado de História para alunos do ensino fundamental da unidade de Nova Esperança da Rede Sagrado Coração de Jesus (PR).